Há uma frase que muda completamente a maneira como enxergamos o propósito da Igreja: a Igreja não possui uma missão. O Deus da missão possui uma Igreja.
Essa afirmação parece apenas uma mudança de palavras, mas, na verdade, revela uma das verdades mais profundas das Escrituras. Durante muito tempo, muitos cristãos entenderam missões como um dos muitos ministérios da igreja. Em alguns lugares, tornou se um departamento, um congresso anual ou uma oferta levantada em datas específicas. A Bíblia, porém, apresenta uma realidade muito maior.
A missão nunca começou com a Igreja.
Ela começou com Deus.
Desde as primeiras páginas de Gênesis, vemos um Deus que busca, chama, envia e restaura. Depois da queda de Adão e Eva, foi o próprio Senhor quem veio ao encontro do homem no jardim, perguntando: “Onde estás?” (Gênesis 3:9). Aquela pergunta não era porque Deus desconhecia a localização do homem, mas porque já estava iniciando sua obra de redenção.
Pouco depois, Deus chama Abraão e faz uma promessa que alcançaria todas as nações.
“Em ti serão benditas todas as famílias da terra.” (Gênesis 12:3)
Perceba que Deus não escolheu Abraão apenas para abençoá lo. Ele o escolheu para que, por meio dele, a bênção chegasse ao mundo inteiro.
Ao longo da história bíblica, esse mesmo Deus continua enviando pessoas. Ele levanta Moisés para libertar Israel, envia os profetas para chamar o povo ao arrependimento e anuncia repetidamente a vinda do Messias.
Então chega o ponto central da história.
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito…” (João 3:16)
Jesus não veio ao mundo porque a humanidade elaborou um plano de salvação. O Filho veio porque foi enviado pelo Pai.
“O Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.” (Lucas 19:10)
Toda a vida de Cristo revela essa verdade. Ele vivia consciente de que estava cumprindo a vontade daquele que o enviou. Sua missão era fazer conhecido o Reino de Deus e reconciliar pecadores com o Pai por meio da cruz.
Depois de sua ressurreição, Jesus olha para os discípulos e declara:
“Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio.” (João 20:21)
Esse versículo muda nossa perspectiva sobre a Igreja.
Jesus não cria uma nova missão. Ele convida sua Igreja a participar da missão que já estava em andamento desde a eternidade.
É por isso que a Igreja não inventa seu propósito. Ela responde ao chamado de Deus.
Quando esquecemos essa verdade, missões se tornam apenas uma atividade entre tantas outras. Quando a compreendemos, percebemos que tudo o que a Igreja faz deve estar conectado ao propósito de Deus de reconciliar pessoas consigo mesmo por meio de Cristo.
O apóstolo Paulo explica isso de forma extraordinária.
“Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo… e nos confiou a palavra da reconciliação.” (2 Coríntios 5:19)
Observe quem toma a iniciativa.
É Deus quem reconcilia.
É Deus quem chama.
É Deus quem envia.
A Igreja não é protagonista da missão. Ela é instrumento nas mãos do Deus missionário.
Essa compreensão também transforma a maneira como enxergamos o chamado missionário. Não existem dois grupos de cristãos, os que fazem missões e os que apenas assistem. Existem diferentes funções, diferentes dons e diferentes campos de atuação, mas todo discípulo de Jesus participa da missão de Deus.
Alguns irão atravessar oceanos.
Outros atravessarão a rua para falar de Cristo ao vizinho.
Alguns serão enviados.
Outros sustentarão aqueles que foram enviados.
Alguns traduzirão a Bíblia.
Outros discipularão uma única criança.
Todos, porém, pertencem ao mesmo Deus e servem ao mesmo propósito.
A missão de Deus alcança povos, cidades, famílias e corações porque o próprio Deus continua agindo na história.
A Igreja apenas caminha atrás daquele que vai à frente.
Talvez a maior pergunta para nossos dias não seja qual projeto missionário devemos criar.
A pergunta correta é outra.
Estamos vivendo de maneira alinhada com a missão que Deus já está realizando no mundo?
Quando entendemos isso, deixamos de enxergar missões como um evento do calendário da igreja.
Ela passa a ser nosso estilo de vida.
Porque a Igreja nunca foi chamada para construir sua própria missão.
Ela foi chamada para seguir o Deus que, desde o princípio, está buscando pecadores, formando um povo para si e fazendo conhecido o nome de Cristo entre todas as nações.
Essa sempre foi a missão.
E sempre será.
